
24 settembre, 2006
21 settembre, 2006
14 settembre, 2006
O Nascimento
Não tinha um nome para a recém-nascida, mas já tinha certeza irrestrita sobre a existência singular que a aguardava, fartamente recheada de fatos operados por forças sobrenaturais e bênçãos de todos os deuses. Rosa não era pagã, mas sabia que uma filha como a sua não deveria confinar-se a um só deus. Decidiu nomeá-la Mimosa, em homenagem a uma planta ornamental que conheceu certa feita. Não era de seu feitio demonstrar apreço aos outros seres do mundo, mas dessa vez estava convicta que deveria fazê-lo, devido à beleza descomunal que havia enxergado no vegetal.
Não iria a cartórios, nem batismos, dada a sua solidão absoluta; simplesmente a chamaria de Mimosa e daria por concluído qualquer obrigação burocrática. Sequer suspeitava da natureza bovina do nome de sua filha, já que era, de fato, muito sozinha.
A mulher conhecia nada sobre sua própria origem, ou bloqueou todo conhecimento sobre isso, já que o autor não consegue entrever sequer um indício sobre tal fato. Porém, é sabido que ela possui uma desenvoltura invulgar para estar consigo mesma. Hábito que adquiriu da macieira que residia em seu quintal, aliás, as duas existências confundiam-se em sua origem. Por vezes, Rosa pensava ser um galho da árvore frutífera, o que tornaria Mimosa uma maçã. Ela não estaria de todo errada, não fosse o choro da recém-nascida.
Mimosa possuía um par de pulmões de se encher os ouvidos. Cada cacarejo do bebê ecoava pela casa toda e chegava até o quintal. Curiosamente, o barulho não ultrapassava o limite do terreno onde elas estavam. Era como se estivessem absolutamente só. E estavam, pois há nenhuma outra personagem humana nessa estória.
A nova mãe levantou-se e manejou o nenê de forma que o cordão umbilical ficasse ao alcance de sua boca. Desferiu uma dentada, libertando Mimosa. Pronto. Estava feito. A mulher sabia, instintivamente, que não se deve prender os filhos em casa; então tratou de ir até o quintal e deixar sua filha no chão. Empurrou-a com o pé, para estimulá-la a sair de casa. O bebê não respondia, apenas continuava ensaiando diferentes tons de berros.
A mulher resolveu ajudá-la a parar de gritar, para que não cansasse a voz, colocando um punhado de terra em sua garganta. Afinal, usaria as palavras abundantemente, dado seu destino extraordinário. E, já que havia começado a ajudar, resolveu auxiliá-la a levantar-se e permanecer ereta. Rasgou um pedaço de pano do seu vestido e foi até a macieira pegar um galho. Amarrou-o nas costas do bebê e encostou-o na árvore. Deu dois passos para trás e contemplou o resultado de seu trabalho por um ou dois segundos. Deu um passo adiante e tocou no ombro de Mimosa como que diz “vai, vai agarrar seu destino”. Indicou o caminho, apontando com o dedo. Mimosa continuava gritando.
Rosa sorriu ternamente com os olhos mareados de orgulho. “Minha filha!”, exclamou para si mesma. Achegou a mão ao rosto da criança, que parecia se acalmar com a proximidade maternal, e fez alguns afagos. Balançou a cabeça negativamente, pré-dizendo a efemeridade dos momentos, e afastou-se novamente. Grunhiu alguma palavra e virou as costas. Suspirou tão profundamente que seus ombros levantaram-se efusivamente. Se houvesse outra personagem, esta poderia interpretar esse fato erroneamente: acharia que a mãe está “dando de ombros” para uma recém-nascida, depois de amarrá-la e deixá-la ao pé de uma árvore. Obviamente, não é o caso. A mãe entrou na casa e bateu a porta, trancando-a com três cadeados, caso a filha tentasse forçar a porta e desistir do destino glorioso que tinha à frente de si. Rosa era, de fato, muito sozinha."
13 settembre, 2006
Thiago Thomé

"Sem Título 3" - 2005 óleo s/ tela80X60 cm
“Thiago Thomé nasceu em 1979 na cidade de Marília, São Paulo. Entre 2000 e 2002, estudou pintura no Califórnia College of the Arts. Formou-se em Artes Visuais pelo Centro Universitário Belas Artes, em 2004.
Os anos de 2000 e 2001 marcam suas primeiras exposições individuais em Marília e São Paulo, seguidas por coletivas em São Francisco, Estados Unidos, e, nos anos seguintes, novamente na cidade de São Paulo.
Um primeiro olhar nos revela o desenho subjacente à pintura. Fato raro na arte contemporânea em que as formas prontas são apropriadas sem que haja interrogação alguma quanto ao procedimento. Entretanto, não há surpresa nessa descoberta, uma vez que o artista estudou densamente a anatomia da figura humana e realizou pesquisas sobre as tensões lineares vistas nas obras de Edgar Degas, sobre as massas aquareladas dos trabalhos de Egon Schiele e sobre os desenhos de Auguste Rodin que permitiram uma formação sólida, hoje presente em suas pinturas.
As pesquisas entrelaçaram-se com as dimensões temáticas do trabalho. Diz o artista: “Interesso-me pelos intervalos, pelo momento impreciso entre o sonho e a vigília, lugar esse onde não se sabe o que é real e o que se imagina”.
É no intervalo das impermanências que Thiago vai buscar sua ordem criadora – as torções de corpos, os braços alongados, as faces veladas, algumas olhando para além dos limites da tela, os contornos imprecisos e os tons dos beges, rosas e negros constroem uma unidade estética situada entre o desenho e a massa pictórica, unidade que também incorpora materialidades precisas. Esses aspectos não construiriam uma linguagem artística significativa se um vigor imagético não pairasse nas obras. Entretanto, é esse panorama vigoroso que irrompe num sistema de correlações e nos oferece uma nova cena nos horizontes das artes plásticas da atualidade. “ (Carmen S. G. Aranha)
10 settembre, 2006
03 settembre, 2006
01 settembre, 2006
La Nuvola in Pantaloni (prima parte)

"Con la pezza
piena di sangue
del mio cuore,
combattente e fiero,
provocherò i pensieri
che vi rimbalzano
nei cervelli rammolliti,
come grassi galoppini
sopra divani puzzolenti.
Siatene certi:
vi disprezzerò in abbondanza.
Non un capello bianco
nè una gentilezza di vecchio
mi fiorisce nell'anima!
Rimbambendo il mondo
con la prepotenza della mia voce
vengo avanti: bello,
ventiduenne.
Gentili!
Voi l'amore spalmate sui violini.
Il balordo lo alliscia sui tamburi.
Mai potreste fratturavi come me,
e essere soltanto labbra infinite!"
(La Nuvola in Pantaloni --- Vladimir Majakovskij)





































